Quando foi a última vez que você viu crianças brincando na rua onde mora?
Não vale playground dentro de um condomínio ou de um parque privado e cercado. A pergunta é sobre a própria cidade: crianças andando de bicicleta, jogando bola, correndo em uma praça aberta, caminhando até a escola ou simplesmente brincando na rua.
A falta dessas cenas nos dias de hoje pode parecer apenas uma mudança no comportamento das famílias, mas na verdade também revela uma transformação profunda na maneira como nossas cidades estão sendo formadas.
Durante boa parte do século XX as ruas passaram a ser organizadas cada vez mais em função dos automóveis, mais rodovais, aumento de avenidas, mais estacionamentos e as vias destinadas à circulação em velocidade. Ao mesmo tempo espaços que antes eram utilizados para permanência, encontros e brincadeiras foram aos poucos perdendo espaço.
Para uma criança essa transformação é especialmente significativa, afinal ela não possui a mesma capacidade de avaliar riscos que um adulto e é muito mais vulnerável ao trânsito. Como consequência a infância foi sendo afastada das ruas e confinada a espaços considerados seguros, como condomínios, escolas e áreas privadas.
Mas será que uma cidade realmente precisa retirar as crianças das ruas para protegê-las?
É justamente nesse contexto que aparece o conceito de cidade jogável. A ideia não significa simplesmente espalhar playgrounds pela cidade, mas trata-se de pensar o espaço urbano de maneira que crianças possam brincar, caminhar, explorar e conviver com outras pessoas de forma natural e segura.
Uma praça pode ser um espaço de brincadeira, uma calçada confortável também, uma rua com pouco tráfego pode se transformar em um lugar onde crianças conseguem andar de bicicleta. Até mesmo o caminho entre a casa e a escola pode oferecer oportunidades de interação e descoberta.
Nesse sentido projetar cidades para crianças significa olhar para o espaço urbano a partir de uma escala diferente. E essa mudança de perspectiva pode beneficiar praticamente todos os outros grupos da população.
Uma calçada segura para uma criança também é melhor para um idoso, uma rua com menos carros pode ser mais confortável para pessoas com deficiência, uma praça com espaços de permanência favorece famílias, jovens e adultos, uma escola com um entorno mais seguro melhora a experiência de toda a comunidade.
Barcelona é um dos exemplos mais conhecidos dessa tentativa de recuperar o espaço urbano para as pessoas. A cidade vem desenvolvendo diferentes iniciativas relacionadas à chamada “cidade jogável”, combinando transformação de espaços públicos, redução do tráfego em determinadas áreas e qualificação dos ambientes próximos às escolas.
Nesse sentido, a prefeitura de Barcelona, na Espanha, lançou um programa chamado “Protegim les escoles” (Vamos Proteger as Escolas), onde o objetivo é tornar os arredores das escolas mais seguros e agradáveis, enquanto outras iniciativas transformam pátios escolares e espaços públicos em áreas de convivência. A lógica é relativamente simples: se determinados espaços deixam de ser dominados pelo trânsito, eles podem voltar a cumprir outras funções. E esses efeitos não precisam estar limitados às crianças.
Quando uma rua se torna mais agradável, as pessoas tendem a permanecer mais tempo nela. Quando uma praça oferece melhores condições de permanência, aumentam as oportunidades de encontro. Quando o caminho até a escola é seguro, a própria relação das famílias com o bairro pode mudar.
Por isso, crianças brincando no espaço público podem ser entendidas como uma espécie de indicador da qualidade urbana, se elas conseguem circular, explorar e permanecer na cidade com certa autonomia, provavelmente existem também condições favoráveis para muitos outros grupos.
Talvez o objetivo portanto, não deva ser simplesmente criar lugares específicos para as crianças brincarem, mas sim construir cidades em que a própria cidade seja um lugar onde elas possam brincar.
Uma cidade boa para a infância não é necessariamente uma cidade sem riscos, é uma cidade que consegue administrar esses riscos sem eliminar a liberdade e a convivência.
No fim, pensar na cidade a partir das crianças pode ser uma maneira bastante eficiente de repensar a cidade para todos.





