Morar virou um luxo? A crise habitacional na Espanha expõe um problema mundial

Protestos recentes em cidades espanholas estão evidenciando uma crise que parece global e coloca em discussão o acesso à moradia e o problema da especulação imobiliária.

No início de outubro de 2026, milhares de pessoas estão ocupando as ruas de diferentes cidades da Espanha para protestar contra a crescente dificuldade de acesso à moradia. As manifestações, realizadas em mais de 50 cidades, reuniram moradores insatisfeitos com o exagerado aumento dos aluguéis no país.

Na capital Madri, os protestos de 3 de outubro reuniram 70 mil pessoas, segundo as autoridades, enquanto os organizadores estimaram a participação em 500 mil manifestantes. Apesar da diferença nos números, a dimensão dos protestos mostra a importância que a questão habitacional adquiriu no debate público espanhol.

A situação ganhou repercussão e explodiu com o caso de María del Carmen Abascal, uma idosa de 87 anos que foi despejada do apartamento onde vivia desde os 17 anos. Maria morreu nesta quarta-feira (dia 07), no Hospital Gregorio Marañón, informou o Sindicato de Inquilinas em comunicado divulgado pela família e pela sua advogada. Sua história tornou-se símbolo de uma realidade que atinge diferentes gerações: a dificuldade de permanecer em bairros onde o custo da habitação cresce mais do que a capacidade financeira de seus moradores.

Por que morar está ficando tão caro?

A crise habitacional espanhola resulta de uma combinação de fatores. Entre eles estão a oferta insuficiente de novas moradias em regiões de elevada demanda, o aumento dos preços imobiliários, a concentração de oportunidades econômicas nas grandes cidades e a expansão dos aluguéis de curta duração em determinados mercados.

Em destinos turísticos como Barcelona e Madri, o crescimento da demanda por hospedagens temporárias também intensificou o debate sobre a utilização de imóveis residenciais para atividades turísticas.

Outro ponto que tem sido levantado é a transformação da habitação em ativo financeiro, hoje os imóveis muitas vezes não são adquiridos exclusivamente para moradia, mas sim com a intenção de investimento e de gerar renda.

Especialistas falam que o problema não pode ser explicado apenas pela especulação imobiliária. Alguns alegam que a escassez de novas construções, as restrições urbanísticas e as dificuldades de ampliar a oferta de habitação também influenciam os preços, embora isso acabe variando dependendo da localidade e de suas regras urbanísticas locais. Estimativas divulgadas em 2026 mostram que o déficit habitacional espanhol poderá alcançar um milhão de unidades até 2028.

Uma crise que não é exclusividade da Espanha

O que acontece na Espanha faz parte de um problema muito mais amplo, em outubro de 2026, durante as celebrações do Dia Mundial do Habitat, a ONU-Habitat voltou a colocar a moradia adequada no centro das discussões sobre o desenvolvimento urbano.

Segundo a organização, até 3,4 bilhões de pessoas no mundo vivem sem acesso à habitação adequada, sendo que isso não se limita à existência de um teto, mas envolve segurança da posse, infraestrutura, acessibilidade econômica e localização apropriada.

Isso significa que a crise habitacional também é uma crise de planejamento urbano. Quando famílias precisam se afastar das áreas centrais para encontrar imóveis financeiramente acessíveis, surgem consequências que vão além da questão residencial, as distâncias aumentam entre casa e trabalho, os custos de deslocamento aumentam, a infraestrutura das periferias parece insuficiente a desigualdade dentro do território das cidades só se acentua.

E o que isso tem a ver com o Brasil?

Embora existam diferenças econômicas e institucionais importantes, o Brasil também enfrenta problemas semelhantes, especialmente no que diz respeito ao déficit habitacional e ao valor dos imóveis.

Em muitas cidades brasileiras, novos empreendimentos avançam sobre áreas periféricas enquanto regiões consolidadas apresentam terrenos vazios ou imóveis subutilizados, aumentando os custos de infraestrutura e aprofundando a segregação socioespacial.

O grande crescimento das hospedagens temporárias por aplicativos também tem sido alvo de debate, chegando novamente a questão da habitação ser encarada como investimento, e não como direito básico do cidadão.

A experiência espanhola demonstra a importância de discutir políticas habitacionais de maneira séria e integrada. Ampliar a oferta de moradias é fundamental, mas também é necessário considerar sua localização, os mecanismos de financiamento, a proteção dos moradores vulneráveis e o acesso aos serviços urbanos.

Estamos vendo que uma cidade pode continuar crescendo, recebendo investimentos e construindo novos edifícios enquanto ao mesmo se vai se tornando inacessível para parte de sua população.

Mais do que uma discussão sobre o preço dos imóveis, a crise habitacional coloca uma questão central para o urbanismo contemporâneo: de que adianta uma cidade economicamente dinâmica se as pessoas que a mantêm funcionando não conseguem mais morar nela?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *